Episódio 3
Anfitrião: Paulo Lourosa
Convidado: Alexandre Fonseca | Administrador, Taguspark
Alexandre Fonseca: Muito obrigado pelo convite. Bem, eu sou, começando pela base, um tecnólogo. Sou engenheiro na área de sistemas de informação. Comecei a minha carreira como consultor em multinacionais. Tive uma carreira internacional no início, onde passei por vários países em projetos das mais diversas áreas, mas sempre aliando a tecnologia e a gestão. Há cerca de 25 anos decidi dar um salto, mudar para as telecomunicações. Área onde passei cerca de 23 anos da minha vida com funções a nível executivo, ao nível do Board, de operadores de cabo, operadores empresariais... e depois, obviamente, a parte talvez mais visível da minha carreira profissional, em 2015, quando da aquisição da antiga Portugal Telecom. Primeiro fiz parte do Board enquanto responsável da área tecnológica e de operações e, depois, em 2017, assumi a presidência da Portugal Telecom até 2021. Durante cerca de dois anos e meio assumi a liderança do grupo Altice a nível mundial, com um conjunto de países sob minha responsabilidade, até ao final de 2023. Desde há cerca de dois anos a esta parte, tenho agora uma nova etapa na minha vida, agora como não-executivo essencialmente. No Taguspark, onde sou administrador há alguns anos, presidindo ao Conselho Estratégico da Economia Digital da CIP, e também enquanto Senior Advisor e Board Advisor de um conjunto de organizações nacionais e internacionais. Em paralelo, sou também empresário, tenho alguns negócios meus na área da hotelaria e das tecnologias. Junto agora o lado mais empreendedor com o lado de advisor, onde capitalizo a experiência profissional que tive.
Alexandre Fonseca: Bem, desde logo no início, a carreira internacional. Marcou-me imenso ter tido a oportunidade de trabalhar em mais de uma dezena de países diferentes, em vários continentes. Isso deu-me a consciência do que era trabalhar em ambientes multidisciplinares e multiculturais, em realidades muito distintas como África, por exemplo. Isso moldou-me enquanto pessoa e profissional. Depois, obviamente, é incontornável o cargo de presidente da Portugal Telecom (PT). Ter assumido essa presidência foi um marco muito importante, provavelmente um dos cargos mais relevantes que assumi. Fui responsável por um enorme turnaround que foi reconhecido pelo mercado e pelo setor; transformar uma empresa que tinha estado numa fase de declínio numa empresa que cresceu, se transformou e rejuvenesceu a marca. E depois, o momento atual. É um momento que estou a desfrutar imenso, voltando um pouco às bases de consultor, mas agora num patamar diferente, a trabalhar ao nível do Board de várias organizações na Bélgica, Espanha, Inglaterra... É uma fase onde consigo equilibrar muito mais a minha vida pessoal e a profissional.
Alexandre Fonseca: Acho que há duas questões fundamentais. Uma da minha formação de base: o tema de que a tecnologia tem de ter um objetivo último, que é melhorar a vida das pessoas. Se desenvolvemos tecnologia que não serve para melhorar a vida das pessoas ou das organizações, não estamos a fazer a coisa certa. A outra é comportamental: a ambição. A ambição é algo que me tem caraterizado e orientado a carreira. Acho que falta ambição em Portugal; temos quase uma vergonha de crescer, de passar de PME a média e grande empresa. É preciso ser mais audaz, arriscar e saber que vamos falhar, pois falhar faz parte do processo.
Alexandre Fonseca: Acho que a proximidade. A proximidade é algo que eu tento sempre praticar na gestão das organizações. Mas a proximidade às vezes é complicada quando se está a liderar uma organização de grande dimensão. As pessoas nem sempre compreendem o distanciamento que por vezes é necessário para o desempenho das funções de liderança. Eu acredito que um líder tem de ser próximo. Mas quem trabalhou comigo de perto percebe isso, percebe que havendo confiança e lealdade, essa proximidade desenvolve-se. Às vezes dizem "ah, ele é uma pessoa mais fria ou distante", mas é o sangue-frio necessário a um líder.
Alexandre Fonseca: Há um episódio de quando comecei a trabalhar, por volta de 95 ou 96. Eu era estagiário numa das antigas Big Five. Lembro-me perfeitamente, eu trabalhava como programador e um dia, por volta da meia-noite, eu estava no escritório a trabalhar. Um dos sócios (retired partner) passou por lá e perguntou-me o que estava a fazer. Eu expliquei e ele perguntou-me: "Mas não tens família, namorada?". Eu disse que sim, mas que tinha aquilo para acabar. Ele disse-me com muita calma: "Estes problemas que estás aqui a resolver, amanhã de manhã vão ser resolvidos num instante. Vai para casa, descansa. Isto é só trabalho". Foi um conselho que me ficou: o "isto é só trabalho". É preciso parar, respirar e descansar. Às vezes, o tempo e o descanso são os melhores conselheiros.
Alexandre Fonseca: Eu acho que não mudou muito, nem tem de mudar. À medida que crescemos na carreira, temos de dosear a nossa forma de intervir, mas a liderança passa por sermos capazes de ter coerência nos nossos valores. Eu acredito que liderar é inspirar e motivar. É fazer os outros quererem fazer aquilo que nós queremos que eles façam. É fundamental mostrar conhecimento do negócio. Às vezes, os líderes falham porque não têm conhecimento profundo do que têm à frente. Se tivermos esse conhecimento, inspiramos mais confiança e credibilidade.
Alexandre Fonseca: Essa vulnerabilidade, às vezes, é vista de forma depreciativa, e não o é. A minha primeira preocupação sempre foi a escolha da minha equipa. Eu não trabalho com pessoas em quem não tenha profunda confiança, técnica e pessoal. Prefiro alguém com um pouco menos de competência técnica, mas em quem eu possa confiar, do que alguém tecnicamente extraordinário, mas sem confiança. Se queremos ser o melhor líder, temos de ter a melhor equipa e trabalhar com os melhores, de preferência pessoas que sejam tão boas ou melhores do que eu, porque são essas que nos desafiam e nos dizem "não concordo". Perceber que não sabemos tudo e precisar dos outros para completar a visão não é fragilidade, é um ato de inteligência.?
Alexandre Fonseca: O mundo das telecomunicações mudou muito. No início, o grande fator diferenciador eram as infraestruturas físicas. Eu sempre tive dificuldade em acreditar nisso; para mim, o diferencial é o serviço que se presta ao cliente. A monetização e a venda de infraestruturas (torres, data centers, redes de fibra) mostram o caminho do foco no cliente e no core business. O setor é de capital intensivo, com rácios de CAPEX sobre receitas muito altos (por vezes próximos de 20%). Surgiram entidades especializadas, as InfraCos, cujo racional é otimizar esses ativos a longo prazo (10, 20 anos), permitindo que os operadores se libertem dessa gestão para se focarem na relação com o cliente.
Alexandre Fonseca: O desenho da definição do perímetro, das fronteiras ("o que é que fica, o que é que vai"), o carve-out, é um ponto decisivo. Um mau desenho da fronteira pode, meses mais tarde, pôr em causa o negócio. Isso tem repercussões fiscais e económicas enormes. Depois, a Due Diligence é extremamente difícil porque auditar no terreno dezenas de milhares de ativos num curto espaço de tempo é complexo. E tem de haver um buy-in da organização. Estes negócios não se fazem por decreto; se as diversas áreas da empresa não estiverem de acordo e envolvidas, o processo falha.
Alexandre Fonseca: Um processo destes só pode ter sucesso se for liderado diretamente pelo CEO. O CEO não se pode demitir deste papel. Os assessores são fundamentais para o volume de trabalho e especificidades técnicas (fiscal, jurídico), mas a empresa tem de dominar o processo. Quando a equipa de gestão sabe menos sobre a sua organização do que os consultores externos, temos um problema grave. O consultor é um complemento, mas a decisão e o conhecimento profundo têm de ser da organização.
Alexandre Fonseca: Nas transações mais pequenas, os "egos" assumem uma dimensão brutal. Muitas vezes é a empresa que a pessoa criou, ou que veio dos pais ou avós. O racional é muito mais frágil do que o emocional. "Eu acho que a minha empresa vale X porque eu passo aqui 12 horas por dia". Nos negócios maiores, a estandardização dos rácios e múltiplos de mercado é muito mais aceite. O tema da valorização é muito mais complexo e emocional nas empresas de menor dimensão.
Alexandre Fonseca: Deve ser. Portugal tem tido uma performance macroeconómica interessante, mas faltam IPOs. A principal ferramenta hoje é a dívida bancária. Abrir o capital, seja de forma minoritária (20-30%) ou majoritária, é o mecanismo mais fácil de expansão. Há muita liquidez no mercado à procura de negócios com boas equipas de gestão e projetos diferenciadores. Muitas vezes, o empresário tem medo de perder o controlo, mas a entrada de um parceiro (financeiro ou estratégico) pode alavancar o crescimento para outros horizontes. Hoje em dia, os earn-outs são uma tendência crescente: define-se um valor inicial e, conforme o atingimento de objetivos a 12, 24 ou 36 meses, pagam-se tranches adicionais. Isso garante uma valorização justa onde todos ganham.
Alexandre Fonseca: Não uma pergunta, mas um reparo: é preocupante a escassez de IPOs de sucesso no sul da Europa nos últimos anos. Os mercados bolsistas europeus têm de se repensar e talvez consolidar para ganharem escala. É fundamental para o dinamismo da economia.
Alexandre Fonseca: Fazer diferente, ser autêntico e fazer as coisas de uma forma distinta.
Alexandre Fonseca: Um líder que inspira as pessoas.
Alexandre Fonseca: Leal para com os meus valores, autêntico.
Alexandre Fonseca: Sem dúvida, a família e os amigos.
Alexandre Fonseca: Que sejam felizes. O objetivo último desta nossa viagem é ser feliz. Temos de ignorar os estereótipos da sociedade e focarmo-nos no que nos faz sentir bem.
Alexandre Fonseca: Muito obrigado, foi um gosto.