Anfitrião: Paulo Lourosa
Convidado: Luís Bessa Mendes | CEO, Seestem Operators
Fusões & Visões é o podcast da Crowe em Portugal, dedicado a fusões e aquisições, corporate finance e crescimento empresarial. Acompanhe as nossas entrevistas a empresários, gestores e investidores, onde exploramos decisões reais, erros, tensões e aprendizagens práticas de processos de M&A e fundraising.
Luís Bessa Mendes: Antes de mais, obrigado pelo convite. Não identifico um episódio concreto, mas tive muita sorte onde comecei. Entrei como estagiário numa pequena equipa de controlo de gestão da Mota-Engil, liderada por pessoas que ficaram como referências para mim: Luís Silva, Nuno Teixeira da Silva e Eduardo Rocha. Eu tinha 22 anos, não fazia ideia do que era trabalhar. O mundo profissional passou a ser, para mim, aquelas pessoas. Se tivessem sido outras, talvez a minha ideia de trabalho fosse hoje diferente.
Luís Bessa Mendes: A vida no private equity não é tão confortável como às vezes parece. No lower mid-market, com recursos escassos, é uma vida exigente. Ao longo dos anos fui conhecendo empresários e ganhando uma enorme admiração por eles. Em Portugal, ser empresário é muito difícil. Ao mesmo tempo, fui gostando cada vez mais de participar nos destinos das empresas, de estar próximo da gestão. Muitas vezes sentia que podia ser mais útil na trincheira do que no quartel-general. Isso foi-se acumulando até se tornar inevitável.
Luís Bessa Mendes: Não diria indecisão. Foi um processo gradual. Costumo dizer que não tomei uma decisão de um momento para o outro; a decisão foi-se impondo. Depois surgiu a pergunta: o que fazer a seguir? Não havia plano B. Saí e só depois procurei o caminho seguinte. Falei com muita gente, refleti muito, conversei muito em casa, e concluí que devia avançar com a Seestem Operators
Luís Bessa Mendes: É uma plataforma de investimento suportada por investidores privados, family offices e alguns institucionais, sobretudo espanhóis, mas também portugueses. Para mim era essencial ter esse respaldo antes de avançar. Depois, há uma oportunidade estrutural na Península Ibérica: o nosso tecido empresarial é composto maioritariamente por PME, muitas lideradas por fundadores com mais de 60 anos, sem sucessão preparada. Isso é um problema sério. O nosso modelo procura resolver dois temas ao mesmo tempo: a liquidez do fundador e a transição da gestão. Compramos empresas estáveis, maduras e rentáveis, e o modelo pressupõe que eu fique 100% dedicado ao investimento realizado.
Luís Bessa Mendes: Não startups, nem empresas em reestruturação. Procuramos empresas maduras, com posição no mercado, rentáveis e com boa reputação no seu setor. Em termos de dimensão, o filtro inicial está mais no EBITDA do que no volume de negócios: tipicamente a partir de 2 milhões de euros, admitindo alguma flexibilidade se houver perspetiva clara de crescimento.
Luís Bessa Mendes: Vejo duas vias principais. A primeira é originação proprietária: analisar setores, estudar empresas e contactar empresários com cuidado e respeito. A segunda é trabalhar com parceiros credíveis, como assessores e entidades que ajudam a originar oportunidades. O deal flow pode ganhar volume rapidamente e a sua gestão é essencial, não só operacionalmente, mas também por uma questão reputacional. Não podemos criar expectativas e depois não ter capacidade para acompanhar um processo.
Luís Bessa Mendes: Não penso muito na diferenciação como exercício teórico. Ela acaba por acontecer naturalmente pela forma como estamos no mercado. No nosso caso, a diferenciação começa no modelo. Há oportunidades que o capital de risco tradicional não consegue abordar, sobretudo quando o fundador quer vender 100% e sair da gestão. Depois há o meu perfil: tenho 45 anos, mais de 20 anos de experiência e muitas cicatrizes profissionais. Isso distingue-me do perfil mais típico de searchers, que são mais jovens e muitas vezes pós-MBA. Além disso, tenho uma perspetiva verdadeiramente ibérica. Para mim, investir em Portugal ou em Espanha é quase indiferente.
Luís Bessa Mendes: Procuro respeitar as boas práticas, claro: acordos de confidencialidade, formalização adequada, disciplina de processo. Mas não há dois casos iguais. Para mim é muito importante ter acesso direto ao vendedor. Neste modelo, vou assumir a gestão da empresa, por isso preciso de perceber não apenas os números, mas também a pessoa, os valores, a relação que poderemos ter. E há outra coisa: gosto de apresentar propostas de viva voz. Não gosto de mandar uma carta por e-mail e esperar. O processo é também um processo de construção de confiança.
Luís Bessa Mendes: Há uma dificuldade típica neste segmento: o acesso a informação fiável e tempestiva. Muitas empresas não têm tudo estruturado como gostaríamos. É preciso flexibilidade. Outra dificuldade é emocional: à medida que a transação avança, o fundador percebe que a empresa vai deixar de ser dele. Isso é muito duro. Já me aconteceu estar tudo negociado e, no fim, o vendedor recuar porque não se imaginava no dia seguinte à assinatura sem aquele papel.
Luís Bessa Mendes: Houve um período particularmente penoso em que era administrador de uma empresa em dificuldades e tivemos problemas para pagar salários. Em três meses diferentes não conseguimos pagar a tempo. Isso marcou-me profundamente. Saber com antecedência que não vais conseguir pagar às pessoas é devastador. Tentas tudo, mexes em todas as contas, procuras liquidez onde for possível, e mesmo assim chegas tarde. Foi uma cicatriz profunda.
Luís Bessa Mendes: Total. Nunca me senti sozinho. A minha mulher não só me apoiou como me encorajou. Neste modelo, quando investir, terei de viver onde a empresa estiver, em Portugal ou em Espanha, e isso implica que a família venha comigo. Se não houvesse essa disponibilidade, este projeto não fazia sentido. Vejo isso não só como um desafio, mas também como uma oportunidade de crescimento para todos.
Luís Bessa Mendes: Diria para largar o Excel mais cedo e ir falar com as pessoas. No início eu achava que uma transação era uma sequência mecânica de passos, modelos e avaliações rigorosas. Hoje sei que isso conta muito menos do que julgava. Numa PME ibérica, não se investe por causa de um modelo financeiro sofisticado. Investe-se com base em confiança, conhecimento do negócio e qualidade da relação com o empresário.
Luís Bessa Mendes: Não contarem a verdade toda. Esconder problemas, achando que não serão descobertos ou que já será tarde demais quando surgirem. Mesmo que o problema seja resolúvel, isso destrói confiança. Transparência é essencial.
Luís Bessa Mendes: O mundo de possibilidades em que vivemos. Acho que temos sorte por viver neste tempo. Há mais informação, mais mobilidade, mais tecnologia, mais possibilidades. Isso entusiasma-me.
Luís Bessa Mendes: Profissionalmente, como alguém que conseguiu fazer carreira sem comprometer os seus valores. Pessoalmente, como bom pai, bom marido, bom filho. Com a idade fui dando cada vez mais valor à gentileza. No fim do dia, todas as pessoas travam as suas batalhas. Ser gentil conta muito.
Luís Bessa Mendes: Apesar de tudo, acho que o mundo nunca esteve tão bem. Mas há erros da história que estamos a começar a repetir. Gostava que os nossos filhos aprendessem com esses erros sem terem de os viver da forma mais dura.
Luís Bessa Mendes: Obrigado eu pelo convite. Foi um gosto.