Em 2026, a sustentabilidade entra numa fase claramente mais exigente e madura. A convergência entre pressão regulatória, expectativas dos investidores e constrangimentos económicos está a redefinir o papel do ESG: do exercício de reporte e reputação para o instrumento central da gestão de risco, capital e competitividade. Com base numa análise alargada de fontes internacionais, este artigo identifica as tendências estruturais que irão moldar a agenda ESG em 2026.
1. Planos de transição: da intenção à viabilidade económica
Os planos de transição climática entram em modo de “prova de stress”.
A questão já não é o que pretendem fazer, mas o que conseguem executar. Em 2026, espera-se que as empresas demonstrem:
• Metas intermédias quantificadas e alinhadas com decisões reais de CAPEX e OPEX;
• Coerência entre compromissos climáticos, estratégia industrial e cadeia de valor;
• Avaliação explícita de trade-offs económicos e operacionais.
2. ESG plenamente integrado na gestão financeira e no risco
ESG deixa de ser “extra-financeiro” e consolida-se como dimensão financeira material:
• Riscos climáticos, sociais e de governance entram nos modelos de planeamento financeiro;
• Ratings, acesso a financiamento e valuation refletem maturidade ESG;
• O custo de capital diferencia cada vez mais empresas.
3. Dados ESG: foco na qualidade, controlo e assurance
Depois de uma fase de expansão acelerada do reporting, o mercado passa a valorizar dados fiáveis, não apenas extensos. Assim, 2026 marca um ponto de viragem:
• Redução do número de métricas a favor de indicadores críticos e comparáveis;
• Reforço de controlos internos, governance da informação e auditabilidade;
• Uso crescente de tecnologia, analytics e automação.
4. Cadeias de valor como epicentro do risco ESG
A maioria dos impactos e riscos ESG continua a residir fora das operações diretas. A sustentabilidade é avaliada end-to-end:
• Direitos humanos, práticas laborais e impactos ambientais nos fornecedores;
• Reforço da due diligence e da responsabilidade ao longo da cadeia de valor;
• Compras sustentáveis tornam-se função estratégica e não apenas operacional.
5. Biodiversidade e capital natural ganham peso estratégico
Após o foco inicial no clima, a natureza entra no centro da agenda.
A degradação da natureza passa a ser encarada como risco económico direto:
• Avaliação de dependências e impactos sobre ecossistemas;
• Integração de riscos relacionados com biodiversidade na estratégia e na gestão de risco;
• Crescente alinhamento com frameworks emergentes e expectativas dos investidores.
6. Transição energética: pragmatismo em vez de simplificação
A narrativa da transição energética torna-se mais realista.
A transição deixa de ser linear e passa a ser estratégica e contextual:
• Ritmos diferenciados entre setores e geografias;
• Limitações reais de infraestruturas, matérias-primas e custos;
• Estratégias híbridas e progressivas ganham relevância.
7. Governance ESG, accountability e risco de greenwashing
Com maior escrutínio público e regulatório, governance sólida é o principal fator de credibilidade ESG:
• Conselhos de administração assumem responsabilidade direta;
• Incentivos de gestão alinham-se com objetivos ESG;
• Greenwashing deixa de ser apenas reputacional e passa a ser risco legal e financeiro.
2026 é o ano das escolhas difíceis
A leitura convergente das principais fontes é clara: o próximo ciclo da sustentabilidade será ganho pelas organizações que conseguem executar, provar impacto e integrar ESG nas decisões estratégicas, mesmo quando isso implica escolhas complexas. Em 2026, a sustentabilidade deixa de ser sobre fazer mais relatórios, passa a ser sobre decidir melhor.
Referências bibliográficas:
• S&P Global Sustainable1 - 2026 Sustainability Trends
• Comissão Europeia - Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD)
• Comissão Europeia - EU Taxonomy Regulation (Reg. (UE) 2020/852)