Crowe | AI

Quem governa a IA na sua empresa?

Os seus colaboradores já utilizam inteligência artificial. Com ou sem a sua autorização.

Miguel Silva
18/06/2026
Crowe | AI
Inteligência Artificial

Dois dados que contam uma história que poucas administrações já leram em conjunto. Segundo o INE, 38,7% das pessoas em Portugal utilizaram ferramentas de inteligência artificial (IA) em 2025, uma taxa acima da média europeia. No mesmo ano, apenas 11,5% das empresas declararam usar estas tecnologias, um valor abaixo da média da União Europeia. São inquéritos distintos, com unidades diferentes, e por isso a diferença entre os dois números não se traduz de forma direta. Ainda assim, o contraste aponta para um padrão conhecido de quem trabalha no terreno: a tecnologia entra nas organizações pela mão das pessoas, muito antes de a empresa a reconhecer, adotar ou governar. É a chamada “shadow AI”, a utilização que já acontece dentro das empresas sem que a empresa o saiba.

O fenómeno não é especulação. O estudo do MIT sobre o estado da IA nas empresas identificou uma verdadeira economia paralela de utilização: colaboradores que recorrem a ferramentas pessoais para tarefas profissionais, à margem dos canais oficiais, precisamente porque essas ferramentas os ajudam. Em muitas organizações, a IA mais usada não é a que a empresa comprou. É a que ninguém autorizou.

Governar não é proibir

Perante isto, a reação instintiva de algumas administrações é a proibição. É compreensível e é, quase sempre, ineficaz. Proibir sem oferecer alternativa não elimina a utilização; empurra-a para mais fundo na sombra, onde nenhum controlo chega. A resposta de gestão deve ser outra: governar. Governar IA significa decidir, de forma explícita, quatro coisas: quem pode usar o quê, com que dados, com que validação humana e com que registo.

Esta distinção importa porque muda o dono do tema. A escolha de ferramentas pode caber à equipa de IT. Mas a definição do apetite de risco, dos dados que podem ou não sair do perímetro da empresa e das decisões que exigem validação humana é matéria de administração. Nenhum diretor de informática pode decidir, sozinho, quanto risco reputacional ou legal a empresa aceita correr. Quando a administração não decide, a decisão é tomada todos os dias, de forma dispersa, por cada colaborador.

Vale a pena olhar para a utilização escondida com olhos de gestor, não de polícia. Ela é, antes de mais, informação valiosa: mostra onde as equipas sentem fricção, que tarefas consomem tempo desproporcionado e que tipo de apoio as pessoas procuram. Uma empresa que faz este levantamento sem tom punitivo descobre, num só exercício, o seu mapa de dores operacionais e os seus primeiros candidatos a casos de uso oficiais. A sombra, bem lida, é um diagnóstico gratuito.

Dados internacionais confirmam que este é o tema do momento. Estudos recentes, sobre confiança e escala, mostram que perto de dois terços das organizações apontam as preocupações de segurança e risco como a principal barreira para escalar a utilização de IA, à frente da incerteza regulatória e das limitações técnicas. Por outras palavras: o que trava o valor não é a tecnologia. É a ausência de um quadro de confiança para a usar.

Implicações para as empresas

A primeira implicação é de exposição imediata. Sem regras, é provável que dados confidenciais de clientes, de colaboradores ou do próprio negócio estejam a circular em ferramentas pessoais, fora de qualquer contrato de tratamento de dados. A segunda é de rastreabilidade: decisões e documentos produzidos com apoio de IA sem registo tornam-se indefensáveis perante um cliente, um auditor ou um regulador. A terceira é de oportunidade perdida: a utilização escondida nunca se transforma em aprendizagem organizacional, porque ninguém a vê, ninguém a mede e ninguém a melhora.

Há ainda uma implicação positiva que merece destaque. As empresas que governam bem a IA podem dizê-lo a clientes, bancos e parceiros, com evidência. Em setores onde a confiança é o produto, e a consultoria, a auditoria ou os serviços financeiros são exemplos óbvios, a governance demonstrável é um diferenciador comercial, não um custo administrativo. Para os setores regulados, ou para quem fornece empresas reguladas, há ainda o efeito de cadeia: bancos, seguradoras e grandes grupos começam a incluir perguntas sobre utilização de IA nos questionários que enviam a fornecedores. Estar preparado para responder com evidência deixa de ser opcional para quem quer permanecer nessas cadeias de valor.

Recomendações práticas

  1. Aprove uma política de utilização de IA de uma página: o que é permitido, o que é proibido, que dados nunca saem da empresa e o que exige validação humana. Clareza vale mais do que exaustividade.
  2. Faça um levantamento honesto das utilizações reais, sem tom punitivo. O objetivo é trazer a prática existente para a luz, não castigar quem tentou trabalhar melhor.
  3. Designe um responsável pela governance de IA com acesso direto à administração. Temas sem dono são temas sem progresso. Em organizações de menor dimensão, pode ser um administrador com pelouro; o essencial é que exista.
  4. Disponibilize alternativas aprovadas para as utilizações mais comuns. A melhor forma de esvaziar a sombra é oferecer um caminho oficial que funcione.
  5. Estabeleça uma revisão trimestral: novas utilizações, incidentes, exceções e ajustes à política. Governance é um processo, não um documento.

Conclusão

Em todas as empresas, a inteligência artificial já tem utilizadores. A única questão em aberto é se tem governo. As administrações que assumirem essa função vão transformar uma prática dispersa e arriscada em capacidade organizada. As que a ignorarem continuarão a acumular, todos os dias, um risco que não aparece em relatório nenhum até ao dia em que aparece.

Reflexão final

Faça hoje uma pergunta simples à sua equipa de gestão: se um cliente nos perguntasse, por escrito, como controlamos a utilização de IA nos serviços que lhe prestamos, o que responderíamos? A qualidade dessa resposta é a medida exata da sua governance.

 

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Miguel Silva
Head of AI ConsultingAdvisory Firm