Financiamento e Estrutura de Capitais

Financiamento e Estrutura de Capitais

04/08/2022
Financiamento e Estrutura de Capitais

A estrutura de financiamento de uma empresa é um fator com um forte impacto no retorno efetivamente obtido pelos acionistas, pelo que a estratégia de uma empresa deverá ter em conta as várias possibilidades de financiamento de forma a aferir as vantagens dos vários tipos de capital. Sendo assim, é necessário compreendê-las, bem como seus limites, para que a estrutura seja simultaneamente eficiente em termos de custo, mas também sustentável e resistente a alterações no decorrer normal da atividade operacional.

Tipos de Capital

De uma forma resumida, os capitais alheios, como empréstimos bancários ou sistemas como o factoring e leasing, apresentam um custo inferior, uma vez que têm prioridade – logo menor risco -  no recebimento do respetivo pagamento (juros e principal) face aos acionistas da empresa. Assim, estes capitais apresentam normalmente contratos com um plano de pagamentos bem definido, com os vários timings e valores definidos à priori. No entanto, os terceiros que fornecem este capital apenas terão direito à sua remuneração e/ou às garantias existentes, e não têm poder de decisão estratégica da empresa.

Já os acionistas da empresa, que disponibilizaram o seu capital à empresa, serão remunerados numa vertente residual, ou seja, após a remuneração de entidades terceiras. Deste modo, o retorno dos acionistas é impactado pela performance da empresa, quer a nível operacional, quer pela tomada de decisões estratégicas onde se inclui, por exemplo, a definição da estrutura de financiamento. Assim, pelo risco assumido por estes investidores, assente na menor prioridade dos seus recebimentos e pelo facto de não possuírem um plano de remuneração definido, a sua taxa retorno relativa (em %) é superior ao retorno/remuneração requerida pelos capitais alheios.

Relação Capital Alheio e Capital Próprio

Tendo em conta que o capital alheio é mais “barato” que o capital próprio, seria ideal ter uma componente considerável de capitais alheios como base de financiamento da empresa. No entanto, a estrutura de capitais de empresa deve ser cuidadosamente desenhada de forma que os acionistas consigam alavancar o seu retorno de forma sustentável (estrutura de capital ótima). Como vimos, os capitais próprios deverão refletir um retorno superior devido ao risco assumido. Adotando esta perspetiva aos capitais alheios, existe um limite no qual a entidade terceira decide não assumir o financiamento ou exige um retorno superior (pelo aumento do risco de incumprimento).

Este ponto é maioritariamente definido pela indústria em causa, que se comporta de forma semelhante, mas também pela empresa em si, que pode apresentar diferenças (i.e. vantagens competitivas) que lhes permite adotar uma abordagem diferente em comparação aos seus concorrentes. Para além disso, um outro ponto com um forte impacto nos limites ao capital alheio e, por consequente, à estrutura de capitais, é a fase do negócio. Numa fase inicial, é habitual as empresas serem fortemente sustentadas por capitais próprios, uma vez que os capitais alheios consideram a empresa demasiado arriscada para ter um forte fundamento deste tipo de financiamento.

Para os acionistas, a utilização de capitais alheios juntamente com capitais próprios alavanca os seus retornos pois parte do capital utilizado tem um custo inferior. Adicionalmente, o custo dos juros impacta o imposto a pagar, pelo que representam um benefício fiscal (tax shield). Note-se que o aumento do endividamento no formato de capitais alheios aumenta o risco para os acionistas que veem o seu ‘remanescente’ a diminuir, o que se reflete no aumento do retorno exigido por estes investidores.

Estrutura de Capital e Avaliação da Empresa

Como podemos ver, ambos os capitais possuem limites e o retorno exigido por cada um dos diferentes tipos de investidores varia consoante o risco percebido , parâmetro este que incorpora fatores ligados à indústria, à economia e à própria empresa. A estrutura ótima de capitais pretende maximizar o valor da empresa, obtendo os benefícios fiscais e de menor custo dos capitais alheios dentro dos limites existentes.

Num exercício de avaliação, adotando o modelo de Discounted Cash Flows, a taxa de desconto dos cash flows anuais projetados deverá refletir o retorno exigido por cada um dos diferentes tipos de investidores, os vários benefícios e limites, bem como o maior/menor risco implícito na estrutura de financiamento. Assim, a definição de uma estrutura de capitais que minimize custos, mas que se mantenha dentro dos limites do risco e da sustentabilidade para o desenvolvimento da atividade da empresa, é um ponto importante para qualquer acionista, o qual tipicamente pode obter o seu retorno na forma de dividendos ou por mais-valias na venda da sua participação. 

Na prática, embora seja relativamente comum as empresas estarem sobreendividadas, em certos casos há empresas que não pretendem utilizar capitais alheios pois veem as necessidades de capital totalmente cobertas por capital próprio. No entanto, caso utilize uma estrutura mais favorável, o acionista poderá ter menos capital em risco e, em termos percentuais, auferir um retorno consideravelmente superior.