COP30 | Crowe

COP30 em Belém

Da diplomacia à implementação

João Silva
19/12/2025
COP30 | Crowe

A COP30, realizada em Belém do Pará, no coração da Amazónia, foi apresentada como a “COP da implementação e da adaptação. Dez anos depois do Acordo de Paris, o balanço é ambivalente: avanços relevantes em adaptação, natureza e financiamento; bloqueios persistentes nos combustíveis fósseis e na ambição climática.

O ponto central é claro: o risco climático está a tornar-se muito rapidamente um risco de negócio e de transição. A questão já não é “se” vamos alinhar com 1,5°C, mas “como vamos operar num mundo que já está a ultrapassar esse limite e precisa de recuperar”.   

1. Uma COP na Amazónia, num momento de viragem

Belém recebeu a COP30 num contexto simbolicamente forte: a primeira COP na Amazónia, dez anos após Paris e logo a seguir à COP29 em Baku, que tinha estabelecido a nova meta de financiamento climático de 1,3 biliões USD/ano até 2035 para países em desenvolvimento.

O principal enquadramento foi o Pacote Político de Belém e a chamada “Mutirão Decision”, proposta pela presidência brasileira como uma mobilização global para acelerar a implementação das NDC (contribuições nacionalmente determinadas) e dos planos nacionais de adaptação.

O objetivo declarado: transformar a COP, de um espaço de negociação abstrata numa plataforma para execução, com foco em:

  • reduzir o desfasamento entre NDC atuais e a trajetória de 1,5°C
  • tornar o financiamento climático mais previsível e orientado para adaptação
  • colocar as florestas tropicais, os povos indígenas e a justiça climática no centro das decisões.

2. Ambição climática: “mutirão” sim, plano para sair dos fósseis não

Em termos de redução de emissões, a COP30 ficou aquém do que muitos negociadores e cientistas consideravam necessário.

  • Até ao final da COP, cerca de 120 países tinham apresentado novas NDC, cobrindo aproximadamente 70-75% das emissões globais.
  • Mesmo assim, essas NDC atualizadas só asseguram entre 10 a 15% das reduções necessárias até 2035, quando seriam precisos cortes de cerca de 60% para manter uma probabilidade razoável de limitar o aquecimento a 1,5°C.
  • Na prática, o mundo continua em trajetória entre 2,3°C e 2,8°C de aquecimento, dependendo da forma de implementação das políticas anunciadas.

O ponto mais sensível foi, uma vez mais, o papel dos combustíveis fósseis:

  • Mais de 80 países apoiaram a inclusão de um roteiro global para a transição fora dos combustíveis fósseis.
  • Os principais países exportadores de petróleo bloquearam qualquer referência explícita a “fósseis” na decisão, empurrando o tema para iniciativas voluntárias e para processos liderados pela presidência brasileira fora do quadro formal da UNFCCC.

Em resposta, a COP30 lançou duas novas iniciativas voluntárias:

  • Global Implementation Accelerator: para acelerar a implementação das NDC e dos planos nacionais de adaptação (NAP), com relato anual até à COP31;
  • “Belém Mission to 1.5”: focada em manter vivo o objetivo de 1,5°C, incluindo reconhecimento formal da probabilidade de overshoot temporário e da necessidade de limitar a sua duração e magnitude.

Para as empresas, a mensagem é desconfortável, mas clara:

A política global continua sem um plano explícito para sair dos combustíveis fósseis e o caminho a percorrer não se alterou (mais regulação, mais custos de carbono, mais exigência de transição), apenas se tornou mais caótico e assimétrico entre países.

3. Financiamento e adaptação: um avanço estrutural, mas tardio

Se a COP30 falhou numa rotura clara com os fósseis, em contrapartida obteve avanços significativos em adaptação e financiamento, especialmente para países vulneráveis.

Triplicar o financiamento para adaptação

O Pacote de Belém inclui um compromisso político de triplicar o financiamento para adaptação até 2035, para cerca de 120 mil milhões USD/ano no âmbito da nova meta de financiamento climático (NCQG). Este objetivo é mais tardio do que muitos países em desenvolvimento defendiam (2030), e aquém das estimativas de necessidade, mas representa uma mudança estrutural: a adaptação deixa de ocupar um lugar secundário no financiamento climático.

Arquitetura financeira e “Baku to Belém Roadmap to 1.3T”

A COP30 consolidou também o “Baku to Belém Roadmap to 1.3T”, que detalha como chegar aos 1,3 biliões USD/ano de financiamento climático até 2035, mobilizando fontes públicas e privadas.

4. Natureza, florestas e povos indígenas: a Amazónia no centro

Na Amazónia, não havia como fugir ao tema das florestas tropicais e dos direitos das comunidades que delas dependem.

Tropical Forests Forever Facility

Foi lançado o Tropical Forests Forever Facility (TFFF), com mais de 5,5 mil milhões USD em compromissos iniciais e perspetivas de aumento ao longo desta década. O objetivo é proporcionar financiamento de longo prazo e previsível para países com florestas tropicais, condicionando recursos à preservação e redução da desflorestação.

Direitos indígenas e deflorestação

  • Acordos e declarações paralelas reforçaram o reconhecimento explícito dos direitos de povos indígenas e comunidades locais nos textos da COP, apontado por várias organizações como um marco para a justiça climática.
  • Embora não tenha sido adotado um compromisso formal para terminar a desflorestação, a presidência brasileira comprometeu-se a desenvolver um roteiro voluntário para pôr fim à desflorestação até 2030, articulando financiamento, monitorização e aplicação da lei.

Para cadeias de valor expostas a risco de desflorestação como, alimentação, retalho, papel, construção, têxtil, isto traduz-se em maior pressão regulatória e reputacional sobre rastreabilidade, due diligence e procurement sustentável.

5. Comércio, indústria, alimentação, saúde e tecnologia: a COP abre novas frentes

Outro sinal importante de mudança foi a alargada agenda temática: COP30 mostrou que o clima já não cabe apenas nos ministérios do Ambiente.

Comércio e indústria

Pela primeira vez, houve um espaço formal para discutir comércio internacional e clima, incluindo:

  • interações entre mecanismos de ajuste carbónico na fronteira, subsídios, tarifas e risco de “carbon leakage”;
  • o papel de cadeias de valor industriais (aço verde, hidrogénio, amoníaco, combustíveis sustentáveis) na transição.

A Declaração de Belém sobre Industrialização Verde Global e compromissos setoriais em aço, cimento, química e transporte pesado reforçam o recado: a descarbonização industrial é agora um tema central de competitividade, não apenas de responsabilidade social.

Tecnologia e dados

A COP30 também reforçou o papel da tecnologia digital, com iniciativas como um novo “AI Climate Institute” e hubs digitais para ação climática, sinalizando que dados, modelação e IA serão cada vez mais críticos na implementação de estratégias de mitigação e adaptação.

6. O que isto significa para as empresas: cinco desafios estratégicos

A COP30 não é “apenas mais uma COP”. É um ponto de viragem para a agenda corporativa, com cinco implicações-chave:

  1. Da narrativa ao delivery
    O foco passou de “ambição” para implementação. Investidores, reguladores e sociedade vão exigir planos de transição credíveis, calendarizados e financiados, alinhados com as NDC nacionais e com os pacotes políticos da COP.
  2. Adaptar é tão estratégico como mitigar
    O financiamento em adaptação e os novos indicadores do Global Goal on Adaptation significam que resiliência, gestão de risco físico e continuidade operacional passam a ser temas centrais de gestão de risco e de investimento.
  3. Natureza e direitos humanos deixam de ser “nice to have”
    Com florestas, biodiversidade e direitos indígenas no centro dos compromissos, as empresas terão de integrar due diligence ambiental e social robusta nas cadeias de valor, sobretudo em setores com exposição a uso de solo, agricultura, minas ou infraestruturas.
  4. Transição justa e impacto social ganham peso regulatório e reputacional
    Programas de transição energética que não considerem emprego, requalificação e impacto em comunidades vulneráveis enfrentarão mais resistência política e social, além de risco reputacional acrescido.
  5. Dados, transparência e tecnologia serão vantagem competitiva
    A multiplicação de indicadores, roadmaps e instrumentos financeiros só é gerível com dados de qualidade, sistemas de reporte integrados e uso inteligente de tecnologias digitais e IA para modelar cenários, monitorizar riscos e suportar decisões de investimento.

A COP30 não resolveu a crise climática, mas reduziu o espaço para ambiguidade. Para quem trabalha em estratégia, risco e sustentabilidade, o verdadeiro trabalho começa agora: traduzir o espírito de Belém em decisões concretas de investimento, governance e inovação nos próximos 12 a 24 meses.

 

Referências:

Harvey, F. (2025, 10 November). Q&A: what are the main issues at Cop30 and why do they matter? The Guardian. Disponível em: https://www.theguardian.com/environment/2025/nov/10/cop30-what-are-the-main-issues-and-why-do-they-matter

BBC News. (2025). COP30: Five key takeaways from a deeply divisive climate summit. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/cp84m16mdm1o

UNFCCC. (2025). UN Climate Change Conference – Belém, November 2025 (COP30). United Nations Framework Convention on Climate Change. Disponível em: https://unfccc.int/cop30

OECD. (2025). Counting down to Belém: What are some key issues on the table at COP30? OECD Blog. Disponível em: https://www.oecd.org/en/blogs/2025/11/counting-down-to-belem-what-are-some-key-issues-on-the-table-at-cop30.html

Christensen, M. (2025). COP 30 review – has the Belém tolled for COP? Allianz Global Investors. Disponível em: https://www.allianzgi.com/en/insights/outlook-and-commentary/cop-30-review

St George, C., & Retallack, S. (2025, 28 November). Did COP30 pass four key tests on emissions, finance, forests and adaptation? The Carbon Trust. Disponível em: https://www.carbontrust.com/news-and-insights/insights/did-cop30-pass-four-key-tests-on-emissions-finance-forests-and-adaptation

Waskow, D., Garcia, M., et al. (2025, 25 November). Beyond the Headlines: COP30’s Outcomes and Disappointments. World Resources Institute. Disponível em: https://www.wri.org/insights/cop30-outcomes-next-steps

Wood Mackenzie. (2025). COP30 – Market insights topic hub. Wood Mackenzie. Disponível em: https://www.woodmac.com/market-insights/topics/cop30/

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Wikipedia contributors. (2025). 2025 United Nations Climate Change Conference (COP30). In Wikipedia, The Free Encyclopedia (consultado em 3 December 2025). Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/2025_United_Nations_Climate_Change_Conference

Chandrasekhar, A., Dunne, D., Dwyer, O., Viglione, G., & Quiroz, Y. (2025, 24 November). COP30: Key outcomes agreed at the UN climate talks in Belém. Carbon Brief. (versão consultada via reprodução em Brave New Europe). Disponível em: https://braveneweurope.com/carbon-brief-cop30-key-outcomes-agreed-at-the-un-climate-talks-in-belem

Paraguassu, L. (2025, 20 November). Fire disrupts COP30 climate talks as UN chief urges deal. Reuters. Disponível em: https://www.reuters.com/sustainability/cop/un-chief-pushes-cop30-deal-roadmap-away-fossil-fuels-2025-11-20/

The Guardian. (2025, 22 November). Fury, confusion and gratitude as climate deal reached in Belém – as it happened. The Guardian Live Blog. Disponível em: https://www.theguardian.com/environment/live/2025/nov/22/cop30-climate-talks-deal-overtime-live-news

 

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