O que fica quando os líderes têm espaço para pensar em voz alta

Presente no encontro "CEO - O QUE FICA", Paulo Lourosa partilha algumas das ideias que mais se repetiram nas conversas entre líderes empresariais: velocidade, Inteligência Artificial, governança e a responsabilidade de cuidar de quem decide.

06/10/2026
Paulo Lourosa - CEO O QUE FICA | Crowe em Portugal
Paulo Lourosa, Managing Partner de Advisory da Crowe em Portugal
Participei esta semana no encontro “CEO - O QUE FICA”, organizado pela Rede do Empresário, em Cascais. Durante dois dias, mais de 150 líderes empresariais partilharam experiências, decisões e preocupações sobre o futuro das organizações.
Tive também a oportunidade de participar numa sessão dedicada a Fusões e Aquisições, no bloco “Capital, gestão e transformação”, representando a Crowe Advisory, a abrir a discussão sobre uma pergunta simples na forma e exigente no fundo:

Quando uma empresa cresce através de M&A (Mergers & Acquisitions), o que está realmente em jogo?

Uma operação pode permitir ganhar dimensão, entrar em novos mercados, consolidar uma posição ou transformar o próprio negócio. Mas nenhuma destas possibilidades acontece de forma automática. O valor de uma operação de M&A depende da clareza da ambição estratégica, da preparação da organização e da capacidade de executar depois da transação.
Ainda assim, o que mais valor me trouxe não foi o momento no palco. Foram as conversas, formais e informais, com outros líderes ao longo dos dois dias.

Houve quatro ideias que se repetiram com particular frequência.

01. Decidir num contexto de incerteza

A palavra que mais ouvi foi “velocidade”.

As empresas estão a decidir num contexto em que tudo acontece mais depressa e em que a informação disponível pode ficar desatualizada em pouco tempo. Esta realidade cria uma tensão permanente entre o receio de ficar de fora e a prudência de quem quer investir com critério.

Decidir bem já não significa esperar por toda a informação. Significa decidir com a informação possível, perceber quais os riscos que podem ser geridos e manter a capacidade de corrigir o rumo.

A qualidade da decisão mede-se também pela capacidade de adaptação que a organização conserva depois de decidir.

02. A diferença entre falar de IA e transformar a organização

A Inteligência Artificial esteve presente em muitas conversas. Mas também houve consenso sobre a distância que ainda existe entre o discurso e a adoção real.

Dar acesso a ferramentas de IA generativa às equipas é um primeiro passo. Não é, por si só, transformação.

Se as pessoas continuam a trabalhar com os mesmos processos, os mesmos fluxos de aprovação e os mesmos modelos de decisão, o resultado será sobretudo um ganho marginal de produtividade individual.

O impacto mais relevante surge quando as empresas redesenham a forma como trabalham: simplificam processos antes de os automatizar, automatizam antes de introduzir agentes autónomos e só depois avançam para sistemas capazes de executar tarefas com menor supervisão.

As empresas que já estão a sentir resultados concretos não são necessariamente as que mais comunicam sobre IA, mas sim as que mais alteraram a sua operação.

03. A governança não pode ficar para trás

Outra ideia recorrente foi a necessidade de resolver questões de governança, segurança e confidencialidade antes de avançar para investimentos significativos em IA.

Quem tem acesso a cada informação? Como se protege a propriedade intelectual? Que dados podem ser processados por sistemas próprios ou de terceiros? Como se controla a utilização de agentes de IA que acedem, cruzam e processam informação?

Estas não são questões secundárias. São parte da própria estratégia de transformação.

Investir em IA sem responder a estas perguntas é construir sobre areia. O risco pode não ser visível no início, mas o custo de o corrigir será, quase sempre, superior ao custo de o prevenir.

04. Cuidar de quem decide

Houve, por fim, uma conversa menos técnica, mas especialmente importante: a saúde mental e física dos próprios líderes.

Num contexto de decisões rápidas, pressão constante e responsabilidade sobre equipas inteiras, cuidar de si não deve ser visto como um luxo. É uma condição para manter a qualidade da decisão, liderar equipas e responder aos desafios com clareza.

Esta foi talvez a conversa mais honesta do encontro, precisamente porque é uma das que menos espaço têm no discurso público sobre liderança.


O que fica

Mais do que as intervenções em palco, ficam as conversas nos corredores. Ficam os líderes que partilham as suas dúvidas e não apenas as suas certezas. Ficam os espaços onde é possível pensar em voz alta, sem a pressão de ter sempre a resposta certa.

Num momento em que as empresas enfrentam mudanças rápidas, decisões complexas e uma pressão crescente para se transformarem, esta capacidade de ouvir, questionar e aprender com outros líderes pode ser uma vantagem competitiva subestimada.

É também essa a relevância de encontros como “CEO - O QUE FICA”: criar tempo e espaço para discutir não apenas o que as empresas estão a fazer, mas também o que estão a aprender.

Porque, no final, o que fica não é apenas a decisão tomada.

Fica a capacidade de compreender por que razão foi tomada, o impacto que gerou e aquilo que a organização aprendeu com o caminho.



A conversa sobre as decisões que transformam as empresas continua no podcast “Fusões & Visões”, da Crowe em Portugal.
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