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Procuram-se Contadores

14/07/2026
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Há profissões cuja importância só se revela quando deixam de existir. Ninguém pensa na relevância da energia elétrica até que a cidade fique às escuras. Poucos refletem sobre o valor do abastecimento de água até que as torneiras sequem. Da mesma forma, quase ninguém percebe o papel da Contabilidade até que um escândalo financeiro destrua bilhões de Reais em valor, um investimento fracasse por falta de informações confiáveis ou uma empresa descubra, tarde demais, que suas demonstrações financeiras não refletiam sua verdadeira realidade econômica.

É justamente por isso que cabe uma reflexão. Diz respeito à própria capacidade de uma economia gerar confiança.

Poucas profissões acompanharam tantas transformações quanto a Contabilidade ao longo da história econômica brasileira. Dos antigos guarda-livros do Império aos atuais especialistas em normas internacionais, governança corporativa, mercado de capitais, sustentabilidade e inteligência de negócios, o contador evoluiu na mesma velocidade em que evoluíram as empresas. A industrialização, a abertura econômica, a criação da Comissão de Valores Mobiliários, a convergência às normas internacionais de contabilidade (IFRS), a digitalização dos processos e, mais recentemente, a inteligência artificial transformaram profundamente a forma de registrar, interpretar e comunicar informações financeiras.

Entretanto, existe um elemento que permaneceu inalterado durante toda essa evolução: A confiança. Toda economia moderna funciona porque existe confiança. Investidores destinam recursos porque acreditam nas demonstrações financeiras das empresas. Instituições financeiras concedem crédito porque confiam na qualidade das informações apresentada por seus clientes. Acionistas permanecem investindo nas empresas porque acreditam que os resultados divulgados representam a realidade econômica do negócio. Auditores independentes exercem seu papel porque existe um conjunto de informações que precisa ser examinado, validado e interpretado.

Sem Contabilidade confiável, não existe mercado de capitais eficiente. Sem demonstrações financeiras confiáveis, não existe investimento consciente. Sem confiança, o custo do capital aumenta, os riscos se multiplicam e toda a economia perde eficiência.

É curioso perceber que, embora todos reconheçam a importância da informação, poucos enxerguem quem torna essa informação confiável.

Durante décadas, consolidou-se uma visão limitada do contador: um profissional dedicado ao cumprimento de obrigações fiscais, ao fechamento contábil e à elaboração das demonstrações financeiras para Multinacionais ou Cias listadas. Essa imagem já não corresponde à realidade. A tecnologia assumiu grande parte das atividades operacionais. Sistemas integrados, documentos eletrônicos, SPED, inteligência artificial e automação reduziram drasticamente o tempo dedicado ao processamento de informações. Muitos interpretaram esse movimento como uma ameaça à profissão, mas na realidade, aconteceu exatamente o contrário. A tecnologia libertou o contador da execução para entregá-lo à estratégia.

O verdadeiro diferencial do profissional contemporâneo já não está em registrar fatos econômicos, mas em compreendê-los.

O contador passou a ocupar um espaço antes reservado quase exclusivamente aos executivos de negócios: interpretar cenários, avaliar riscos, apoiar decisões estratégicas, dialogar com investidores, conselhos de administração, reguladores e auditorias independentes.

Nunca se exigiu tanto da profissão. E talvez ela nunca tenha sido tão relevante. Esse novo contexto trouxe consigo uma competência que passa a diferenciar os grandes profissionais: o senso de crítica e o ceticismo profissional.

As demonstrações financeiras deixaram de ser apenas o resultado de registros objetivos. Tornaram-se, cada vez mais, o resultado de julgamentos responsáveis. Perdas esperadas, provisões judiciais, recuperabilidade de ativos, instrumentos financeiros, estimativas atuariais, provisões ambientais e diversas outras informações dependem da contribuição de especialistas de diferentes áreas.

Advogados, engenheiros, economistas, atuários e consultores fornecem insumos indispensáveis para a construção dessas estimativas. Mas nenhum deles assina as demonstrações financeiras, pois quem assume essa responsabilidade é o contador. E essa responsabilidade exige muito mais do que domínio técnico. Exige independência intelectual, coragem para questionar premissas, discernimento para confrontar informações produzidas por terceiros, identificar inconsistências, compreender riscos e decidir se determinada informação representa, de fato, a realidade econômica da organização.

A inteligência artificial pode sugerir uma estimativa. Um advogado pode avaliar a probabilidade de perda de um processo. Um engenheiro pode emitir um laudo técnico. Mas nenhum deles responde pelas demonstrações financeiras. Essa responsabilidade continua pertencendo ao contador e responsabilidade não se automatiza e muito menos, se terceiriza .

O contador moderno deixou de ser um compilador de dados para tornar-se o guardião da credibilidade das informações corporativas. Talvez essa seja a transformação mais profunda e, paradoxalmente, a menos percebida pela sociedade. Enquanto muitas profissões caminham para a automação, a Contabilidade caminha para o julgamento profissional.

Quanto mais algoritmos produzem informações, maior se torna o valor daqueles capazes de avaliar sua consistência, interpretar riscos e exercer discernimento. É justamente nesse momento que surge outro paradoxo.

Enquanto as organizações se tornam mais complexas, os mercados mais exigentes e as decisões mais dependentes de informação de qualidade, observa-se uma redução no interesse de jovens em seguir a profissão contábil. O Brasil possui atualmente cerca de 542 mil profissionais registrados nos Conselhos Regionais de Contabilidade. Embora seja um contingente expressivo, ele precisa atender a um ambiente econômico cada vez mais sofisticado, regulado e dependente de informações confiáveis.

Ao mesmo tempo, os resultados recentes do Exame de Suficiência do Conselho Federal de Contabilidade revelam um desafio preocupante. Nas edições realizadas em 2024 e 2025, menos de um terço dos candidatos conseguiu ser aprovado no exame, evidenciando as dificuldades na formação e na renovação da profissão.

Mais preocupante, porém, é observar que muitos jovens simplesmente deixaram de enxergar a Contabilidade como uma carreira de primeira escolha. É compreensível. Tecnologia, inteligência artificial, ciência de dados e gestão ocupam espaço crescente no imaginário das novas gerações. Mas é um enorme equívoco imaginar que essas carreiras competem com a Contabilidade. Na realidade, elas convergem. A Contabilidade tornou-se intensiva em tecnologia, em dados, em análise e em inteligência de negócios.

As organizações do futuro precisarão cada vez menos de profissionais capazes de produzir informações e cada vez mais de profissionais capazes de atribuir significado a elas. Essa é, precisamente, a essência da Contabilidade contemporânea. Talvez tenha chegado o momento de a própria profissão revisitar a maneira como se apresenta à sociedade. Não somos apenas responsáveis por registrar o passado das empresas, mas ajudamos a construir seu futuro.

Não produzimos apenas relatórios, mas confiança. Não registramos apenas números, mas traduzimos a realidade econômica em informações capazes de sustentar melhores decisões. Nenhuma economia cresce de forma consistente sem decisões melhores.

Valorizar a Contabilidade não significa defender uma categoria profissional. Significa reconhecer uma das infraestruturas invisíveis da economia.

Mercados funcionam com capital e empresas crescem com estratégia, mas ambos dependem, antes de tudo, de confiança. E confiança continua sendo o principal ativo produzido pela Contabilidade.

Por isso, quando dizemos "Procuram-se Contadores", não estamos falando apenas de uma profissão, mas de um país que precisará, cada vez mais, de profissionais capazes de proteger investidores, fortalecer a governança das organizações, dar credibilidade às informações corporativas e transformar dados em confiança. No fim, talvez essa sempre tenha sido a verdadeira missão do contador que é transformar informação em confiança.

E, em um mundo inundado por dados, talvez nunca tenhamos precisado tanto de profissionais capazes de fazer exatamente isso.

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Marcelo Lico
Fundador da Crowe Macro Brasil e Membro do Conselho Global da CroweSão Paulo Office                                                                                          +55 11 5632.3733                                  +55 11 99102.8610