Capa Empreender no Brasil não é para amadores

Empreender no Brasil não é para Amadores

29/07/2026
Capa Empreender no Brasil não é para amadores

Há um paradoxo que define o Brasil contemporâneo. Enquanto o discurso oficial frequentemente exalta a importância do empreendedorismo para o crescimento econômico, a realidade impõe ao empresário um ambiente cada vez mais complexo, caro e imprevisível. Ainda assim, milhões de brasileiros continuam investindo, contratando, inovando e gerando riqueza. Talvez essa seja uma das maiores demonstrações de resiliência econômica do mundo.

Empreender no Brasil nunca foi uma tarefa simples. Mas os desafios dos últimos anos elevaram essa dificuldade a um novo patamar. O primeiro deles é o desequilíbrio fiscal do governo central. Déficits públicos recorrentes elevam a percepção de risco do país e dificultam a trajetória de redução da taxa básica de juros. Com uma taxa de juros de referência em torno de 14% ao ano, o custo do capital permanece extremamente elevado, encarecendo investimentos, financiamentos, capital de giro e reduzindo a competitividade das empresas brasileiras frente aos seus concorrentes internacionais. Não se trata apenas de um problema para grandes corporações. O pequeno e médio empresário, que depende do crédito para expandir sua operação ou simplesmente manter seu fluxo de caixa, sente diariamente os efeitos desse ambiente monetário restritivo.

Como consequência natural do desequilíbrio das contas públicas, o governo também intensificou a busca por arrecadação. Nos últimos anos assistimos a uma sucessão de medidas que aumentaram a carga tributária direta e indireta sobre empresas e investidores. A elevação do IOF sobre operações de crédito, a redução ou eliminação de diversos incentivos fiscais setoriais, a tributação de dividendos e inúmeras alterações infralegais criaram um ambiente de elevada insegurança jurídica. Em muitos casos, o empresário sequer consegue elaborar um planejamento tributário de médio prazo, pois as regras mudam em velocidade superior à capacidade das empresas de se adaptarem.

Como se isso não bastasse, o país inicia agora a maior reforma tributária de sua história. A simplificação do sistema é um objetivo desejável e necessário. Poucos discordam de que o modelo tributário brasileiro precisava ser modernizado. Entretanto, a transição desperta enorme preocupação. Diversos regulamentos ainda estão em construção. Muitas empresas desconhecem o impacto efetivo da CBS e do IBS sobre seus fluxos de caixa, sobre a formação de preços e sobre seu capital de giro. A própria administração pública ainda trabalha na regulamentação de diversos dispositivos essenciais. A consequência é um ambiente de incerteza justamente no momento em que as empresas precisam tomar decisões de investimento para os próximos anos.

E então surge um novo obstáculo vindo do exterior. O recente endurecimento da política comercial americana, com novas tarifas sobre produtos brasileiros, adiciona mais uma camada de dificuldade para diversos setores exportadores. Estima-se que, aproximadamente US$ 11 bilhões em exportações brasileiras poderão ser diretamente afetados, atingindo especialmente segmentos industriais e do agronegócio. A Amcham Brasil estima que, mantidas as novas barreiras, as exportações brasileiras para os Estados Unidos poderão sofrer retração significativa, justamente em um momento de desaceleração do comércio global. Para empresas exportadoras, isso significa perda de competitividade, necessidade de buscar novos mercados e revisão de estratégias comerciais construídas ao longo de décadas.

O empresário brasileiro, portanto, enfrenta simultaneamente desafios internos e externos. Internamente, convive com juros elevados, aumento da carga tributária, insegurança regulatória e custos crescentes de conformidade. Externamente, precisa administrar volatilidade cambial, tensões geopolíticas, barreiras comerciais e maior concorrência internacional.

E, apesar de tudo isso, continua produzindo. Continua investindo. Continua contratando. Continua pagando salários, tributos e fornecedores. Continua financiando boa parte da inovação e do crescimento econômico nacional.

Poucos países exigem tanto de seus empreendedores quanto o Brasil. O empresário brasileiro tornou-se especialista em administrar riscos que, em economias mais maduras, sequer existiriam. Aprendeu a conviver com mudanças legislativas frequentes, interpretar normas complexas, recalcular investimentos diante de alterações tributárias e reinventar estratégias comerciais sempre que o cenário político ou econômico muda. Essa capacidade de adaptação talvez seja uma das maiores vantagens competitivas desenvolvidas pelo setor privado nacional.

Mas ela tem um custo. Recursos que poderiam ser direcionados para inovação, tecnologia, expansão da produção e geração de empregos acabam consumidos pela necessidade permanente de administrar burocracia, litígios fiscais, planejamento financeiro defensivo e adequação regulatória. E com isso perdemos produtividade, competitividade e oportunidades.

Ainda assim, o setor produtivo continua sendo o principal responsável pela geração de riqueza da sociedade. São as empresas que criam empregos, desenvolvem tecnologia, ampliam exportações, financiam cadeias produtivas e sustentam a arrecadação que mantém o funcionamento do próprio Estado. Por isso, quando se fala em desenvolvimento econômico, é preciso reconhecer uma verdade frequentemente esquecida que é a de o empresário não é um adversário do interesse público. É um de seus maiores aliados.

Um ambiente fiscal equilibrado, juros estruturalmente menores, segurança jurídica, estabilidade regulatória e previsibilidade tributária não representam benefícios exclusivos ao empresariado. São condições essenciais para aumentar investimentos, elevar a produtividade, gerar empregos de maior qualidade e ampliar a renda da população.

O Brasil possui um mercado consumidor relevante, uma base empresarial criativa, abundância de recursos naturais e enorme capacidade de inovação. O que muitas vezes falta não é talento empresarial, mas um ambiente institucional que permita ao empreendedor dedicar sua energia àquilo que realmente sabe fazer: produzir, inovar, competir e criar riqueza.

Se, mesmo diante de déficits fiscais persistentes, juros elevados, crescente carga tributária, uma complexa transição tributária e novas barreiras comerciais internacionais, o empresário brasileiro continua investindo e acreditando no país, isso não é apenas resiliência. É um verdadeiro ato de confiança no futuro do Brasil. E talvez seja justamente essa confiança, muitas vezes silenciosa e raramente reconhecida, que continue sustentando a capacidade do país de crescer, apesar de todas as adversidades.

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Marcelo Lico
Fundador da Crowe Macro Brasil e Membro do Conselho Global da CroweSão Paulo Office                                                                                          +55 11 5632.3733                                  +55 11 99102.8610