capa marcelo

Para onde foi o “apetite” dos novos empreendedores no comércio alimentício?

09/09/2026
capa marcelo

Há quase dez anos acompanho de perto o que vem acontecendo com os negócios no comércio brasileiro e, em particular, no setor alimentício. Nesse período, uma mudança tem chamado minha atenção: parece estar diminuindo o “apetite” de novos empreendedores para investir em bares, restaurantes e outros negócios de alimentação.

Até o início dos anos 2020, especialmente antes da pandemia, eu percebia um cenário bastante diferente. Era comum encontrar amigos e contatos profissionais interessados em empreender nesse mercado. Alguns buscavam diversificar seus investimentos.

Outros, depois de anos de carreira em grandes empresas, viam no negócio próprio uma oportunidade de mudar de vida, utilizando suas reservas e recursos acumulados para realizar esse projeto. Muitos diziam ter encontrado exatamente o que procuravam: trocar o ambiente de pressão das grandes corporações pela possibilidade de estar à frente do próprio negócio, tomando suas decisões e construindo algo seu.

A partir de 2020, porém, essa equação começou a mudar. A Covid-19 trouxe um desafio que praticamente nenhum plano de negócios poderia prever.

Bares e restaurantes estiveram entre os setores mais afetados pelas restrições de circulação. Estabelecimentos construídos para receber pessoas precisaram rapidamente migrar boa parte de suas operações para o delivery.

Muitos não conseguiram sobreviver. Segundo dados divulgados pela Abrasel, aproximadamente 340 mil empresas do setor fecharam entre março de 2020 e julho de 2021.

Medidas emergenciais e linhas de crédito, como o Pronampe, ajudaram muitas empresas a atravessar aquele momento, mas parte dos empresários saiu da pandemia mais endividada. A posterior elevação dos juros tornou a situação ainda mais difícil para alguns desses negócios.

E o “normal” não voltou exatamente como antes.

Quando as restrições terminaram, imaginávamos que o comportamento dos consumidores voltaria ao período pré-pandemia. Mas encontramos um “novo normal”.

Delivery, aplicativos, trabalho híbrido e maior consumo dentro de casa permaneceram incorporados à rotina. Os consumidores voltaram aos restaurantes, mas parte dos hábitos mudou definitivamente.

E, para muitos estabelecimentos, a rentabilidade do delivery não se compara àquela obtida no atendimento presencial, considerando taxas, logística, embalagens e promoções. Foi mais uma pressão sobre as margens.

Depois, as bets começaram a disputar o bolso do consumidor.

Nos últimos anos, surgiu outro fenômeno: a explosão das apostas online no Brasil. As bets passaram a competir diretamente por uma parcela do orçamento que antes poderia ser destinada a alimentação, lazer e outros produtos e serviços.

Pesquisa da NielsenIQ mostra que 26,3% dos domicílios pesquisados realizaram apostas em 2025. Entre os apostadores que reconhecem substituir despesas para apostar, 47% apontam alimentos entre as categorias que perdem espaço.

É difícil afirmar exatamente quanto desse dinheiro iria para o comércio caso as bets não existissem. Dependendo das premissas utilizadas, entretanto, algumas estimativas colocam entre R$ 12 bilhões e R$ 25 bilhões por ano o consumo alimentar potencialmente deslocado pelas apostas.

Pode-se discutir o número exato. Mas é difícil imaginar que um fenômeno dessa dimensão não produza impacto no setor.

O empresário ganhou um concorrente que não está na mesma rua, não vende comida e nem sequer precisa ter uma loja física, mas disputa o mesmo dinheiro do consumidor.

E agora temos as canetas emagrecedoras

Mais recentemente, surgiu outra mudança importante. Medicamentos conhecidos como “canetas emagrecedoras” passaram a alterar o comportamento alimentar de parte dos consumidores.

Pesquisa da NielsenIQ estima que aproximadamente 5% dos lares brasileiros já utilizam medicamentos injetáveis dessa categoria. Entre os usuários pesquisados, 62,3% afirmam reduzir gastos com saídas a bares e 54,9% com restaurantes.

E aqui existe uma diferença importante em relação às bets. As bets disputam o dinheiro do consumidor. As canetas podem alterar o próprio apetite do consumidor.

Na prática, começamos a observar um consumidor que pode continuar frequentando restaurantes, mas consumir de maneira diferente. A entrada desaparece. A sobremesa deixa de ser pedida. Diminui o consumo de bebidas. Em alguns casos, um prato passa a ser dividido.

Naturalmente, não podemos atribuir toda redução de ticket médio às canetas. Economia, inflação, renda e mudanças de hábitos também influenciam esse comportamento.

Mas existe um fenômeno interessante que alguns empresários começam a perceber: o salão pode estar movimentado e, ainda assim, o caixa não responder como respondia no passado.

O resultado é uma nova equação.

Quando juntamos esses fatores, fica mais fácil entender por que o setor parece menos atraente para alguns novos investidores.

A pandemia mudou onde consumimos. O novo normal consolidou delivery e novos hábitos. As bets passaram a disputar o dinheiro disponível. As canetas emagrecedoras começam a mudar quanto e o que parte dos consumidores come.

E tudo isso acontece em um negócio que continua convivendo com inflação, juros, salários, aluguel, impostos, desperdício e dificuldades de mão de obra. Talvez por isso estejamos assistindo a uma mudança importante.

Não acredito que tenha acabado a oportunidade de empreender no comércio alimentício. O que talvez esteja acabando seja a percepção de que abrir um bar ou restaurante é uma alternativa relativamente simples para quem possui algum capital e deseja mudar de vida.

O setor exige cada vez mais profissionalização. Menos “apetite”, mais gestão.

Minha percepção é que o apetite de novos investidores pelo comércio alimentício diminuiu, e pode continuar diminuindo diante desse conjunto de desafios. Isso não significa ausência de oportunidades.

Bons negócios continuarão surgindo e consumidores continuarão frequentando restaurantes, bares e outros estabelecimentos.

Mas o preço do erro aumentou. Para quem ainda pretende investir nesse mercado, minha recomendação é analisar com muito mais cuidado as projeções de volume, ticket médio, margem, delivery, capital de giro e ponto de equilíbrio.

E, principalmente, não se apegar demais às médias históricas.

O consumidor mudou. O mercado mudou. E fenômenos que há poucos anos sequer fariam parte de um plano de negócios hoje precisam entrar na discussão.

Talvez, no comércio alimentício de hoje, mais importante do que ter “apetite” para empreender seja ter disciplina para entender, antes de abrir as portas, se a conta realmente fecha.

E essa análise precisa acontecer antes de abrir as portas, não depois.

PAULO TABARACCI
Paulo Tabaracci
International Desk DirectorSão Paulo Office                                                                                                          +55 11 5632.3733                              +55 11 98224.1194